Priorizar o refino protegeria a Petrobras das variações do mercado (e crise atual mostrou isso do pior jeito)

Vender Refinarias

O dia 9 de março de 2020 foi um dia de pânico nos mercados do mundo inteiro, especialmente o do petróleo. Neste dia, estourou uma grande crise com o preço do barril do petróleo despencando e o valor das companhias petrolíferas caindo junto.

O processo iniciou-se por causa da pandemia do Coronavírus. A China, grande importador de petróleo, viu-se obrigada a diminuir sua demanda do produto porque se viu obrigada a frear sua atividade econômica por causa da doença.

Buscando garantir os preços, a Arábia Saudita, grande exportador, tentou um acordo com a Rússia, que completa com os sauditas o clube dos dois grandes exportadores, para diminuir a produção. Os russos não aceitaram e a oferta seguiu maior que a demanda, derrubando os preços e ações.

Enquanto apenas naquele dia o preço do barril de petróleo tipo Brent caiu 24% depois de ter caído 26% nos primeiros meses do ano, a maioria das empresas teve queda de valor nas bolsas entre 30% e 35% na semana que se seguiu a quebra. A Petrobras, no entanto, perdeu impressionantes 48,1% do valor de mercado, sendo a mais afetada pelo pandemônio nas bolsas.

Olhando mais de perto, é possível entender que levaram a isso. Desde 2016, a Petrobras passou a priorizar o que é chamado de upstream ou E&P (Extração e Produção), diminuindo a capacidade de refino e produção de derivados (chamado de segmento downstream).

Assim, o petróleo extraído principalmente da bacia do Pré-Sal, considerado excelente pela menor quantidade de enxofre em comparação com a maioria dos demais, passou a ser exportado cru. De 2018 para 2019, a receita com exportação de óleo cru subiu de 18% para 24% do faturamento total da companhia.

O principal cliente é justamente a China, que foi responsável por 71% do óleo exportado pela Petrobrás. Os outros principais clientes da companhia são justamente países da região, também muito afetados pela pandemia.

Com os principais clientes diminuindo as compras, com a Europa também parada por causa da pandemia e os Estados Unidos cada vez mais autossuficientes em extração, a confiança dos investidores despencou, tendo em vista que não está faturando com produtos derivados como poderia estar. É um erro de posicionamento de mercado que deixa a empresa vulnerável à crise como nenhuma outra e custou a perda de valor de maneira extremamente rápida.

E se fosse diferente?

Olhando dados da mesma semana, podemos notar que a estatal chinesa Sinopec, que participa do mercado de E&P, mas é mais presente no downstream (refino e derivados), teve seu valor de mercado praticamente estável no mesmo período, com um crescimento de 0,8%. A China importa maior parte do petróleo cru que consome e refina acima da sua impressionante demanda.

Do mesmo modo, entre as demais grandes empresas, a menor queda de valor de mercado, 12,1%, foi da norte-americana Exxon, justamente a que tem maior parque de refino. Sinal claro de quem refina mais tem maior capacidade de reagir às oscilações do mercado.

Isso prova que que o Governo Federal e a Petrobras devem urgentemente rever suas políticas de gestão, voltando a refinar perto de sua capacidade máxima (já operaram a perto de 95%, hoje operam com cerca de 60% de sua capacidade) ou pelo menos suprisse ao máximo a demanda doméstica, ainda mais em um momento que as fronteiras dos países tendem a fechar. A retomada das obras de duas refinarias seria inclusive o que falta para isso ser feito de maneira mais eficiente.

A diversificação de atividades, com venda de derivados, tem vários efeitos diretos e colaterais: proteção contra crises do preço cru do petróleo, criação de empregos no país, preços menores de combustíveis e demais produtos derivados, menor dependência tanto do combustível estrangeiro como da demanda de consumo de outros países.

Tudo isso é reflexo de uma escolha política que aconteceu em 2016, foi mantida pelo atual governo, e tem sido danosa aos brasileiros. A crise atual mostrou do pior jeito que é necessário ser uma empresa que cuida do petróleo do começo ao fim, e que a submissão aos interesses estrangeiros, sucateando ou subutilizando grande parte do parque de refino, tem graves consequências.

Veja também Conclusão de obras de refinarias paradas reduziria os preços dos combustíveis

 

 

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